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terça-feira, 31 de março de 2009

Reflexões Estratégicas Globais (V)

Grã-Bretanha: o Acordar das Massas

No passado Sábado dia 28 de Março, e em preparação para a reunião do G20 em Londres, os povos britânicos fizeram uma das maiores manifestações de que há memoria na Grã-Bretanha. A marcha sob o lema Put the people first (Ponham as Pessoas Primeiro) reuniu 35 000 pessoas que marcharam uma distância de cerca de 10 km, do Embankment a Hyde Park, um lugar famoso por ser o símbolo mundial do discurso livre, enquadrados por um aparato policial sem precedentes. Foi o culminar de um importante processo de mobilização que levou semanas, aonde se chamou a atenção dos trabalhadores para a importância de ocuparem este espaço de protesto, dada a progressiva degradação das suas condições de vida e emprego. Esta manifestação será repetida na Escócia, em Edimburgo, no próximo dia 1 de Abril. Espera-se que a Milha Real que vai do Forte de Edimburgoao castelo de Holyrood, aonde viveu Maria Stuart, esteja tão pejada de gente, como Londres esteve neste fim de semana.

A manifestação foi convocada por uma vasta coligação de 100 sindicatos, grupos eclesiais e organizações de caridade, que incluíam ActionAid, Save the Children, Friends of the Earth e Oxfam. Esta manifestação, para além do seu título acima, tinha como tema empregos, justiça e clima, e os seus destinatários eram os participantes do G20, que começam esta semana a sua reunião aqui em Londres, e da qual muito se esperava em termos de soluçoes para a resolução da crise. Entre os sindicatos contava-se a poderosa UNITE que é uma federação de organizações sindicais, cobrindo várias profissões. 

A manifestação foi ainda integrada por bandas filarmónicas, tambores, muitas bandeiras de vário tipo muito coloridas. Ao chegarem a Hyde Park, os manifestantes ouviram discursos do comediante Mark Thomas e do activista eclógico Tony Juniper, que tiveram ainda momentos musicais do conjunto The Cooks, o que criou no seu conjunto um ambiente de festa.

Os organizadores esperavam 10 000 participantes, pelo que a manifestação se pode considerar um êxito assinalável. É bom notar que no Reino Unido grandes manifestações só quando as pessoas estão efictiva e profundamente revoltadas, pelo que esta manifestação é um sinal claro que o clima social está finalmente a aquecer.

Há todas as razoes para que assim seja. Devido ao colapso parcial do Capitalismo, o desemprego já atinge na Grã-Bretanha 2 milhões de desempregados, e espera-se que até ao fim do ano atinja 3 milhões. As condições de vida deterioram-se significativamente todos os dias, e a deflação uma realidade que já começou a assentar arrais. Por outro lado o Governo britânico persiste na sua saga de salvar a superstrutura da Economia, e de repor o stato quo ante, esquecendo a miséria das populações aonde já há sectores não insignificantes dos estratos intermédios a viverem da caridade publica e em albergues. Na verdade perderam os seus empregos, a que se seguiu a perda da sua casa, o que os tornou sem-abrigo; e sem endereço que os individualizem e possam declarar, dificilmente arranjarão emprego que lhes permita recuperar as suas vidas. Muitos não têm meios para alimentar os filhos, e isto torna a situação ainda mais dramática. Uma onda de miséria abate-se sem remissão sobre o Mundo Desenvolvido.

Nada se espera da reunião do G20. Aliás esta reunião não deverá ter quaisquer consequências, pois as suas decisões para ser implementadas passam por outros fora, e.g. a União Europeia. Mas independentemente deste facto os participantes estão divididos em 3 (!!!) grupos: um formado pelos países ricos que querem antes de mais a reforma do Sistema para reproduzir o stato quo ante, o que parece ser uma impossibilidade, pois é necessário haver poder de compra e procura de bens para que a produção volte a ser o que era, o que inviabiliza retomar a exploração do trabalho tal como ele se processava; outro formado pelos que querem gerar um plano de obras públicas que permita a curto prazo diminuir o desemprego e a partir daí retomar o stato quo ante; e o terceiro as potencias emergentes, que declaram não ter nada a ver com as malfeitorias dos outros dois e que nos colocou nesta negra situação.

Na preparação desta curiosa reunião as forças capitalistas multinacionais, têm o despudor de dizer aos países emergentes como eles devem gerir a sua casa. É assim que se explica a posição de Lula que na visita de Gordon Brown ao Brasil resolveu chamar os bois pelos nomes, deixando o primeiro-ministro inglês com um sorriso muito amarelo.

O segundo colapso do Sistema que se avizinha será ainda mais dramático do que o primeiro. Os barões do Sistema estão sem soluções. A tentativa anterior à crise de mudar o sistema produtivo usando receitas neo-liberais, aonde o dinheiro era gerado pela economia de casino, levou aos grandes escândalos financeiros de Madoff e companhia e a uma contracção da esfera produtiva em face da esfera financeira. O colapso financeiro levou ao colapso económico parcial, e daqui ao colapso total vai uma distância que se medirá em meses, e deverá eclodir ainda este ano. Só uma acção deliberada dos trabalhadores, levando às suas últimas consequências as afirmações da Marcha de Londres do passado Sábado (A Revolução começa aqui, disseram os trabalhadores) permitirá proceder à construção da nova sociedade que se exige, com os trabalhadores no comando, e com as soluções necessárias à construção do seu bem estar social.

domingo, 8 de março de 2009

Reflexões Estratégicas Globais (IV)

Escócia: A Carta do Povo Escocês

O aprofundamento da Crise em na Grã-Bretanha, aonde são esperados até ao findo ano 3 milhões de desempregados, e o esforço de salvamento dos bancos, à custa do erário público, ou seja da criação de riqueza dos trabalhadores, começa a preocupar as forças políticas progressistas do país. Na Escócia, o Comité Escocês de Representação dos Trabalhadores (Scottish Labour Representation Commitee) aonde se encontram representadas várias forças político-partidárias através de militantes sindicalistas, incluindo o ramo escocês do Partido Comunista da Bretanha (Communist Party of Britain) resolveu produzir a Carta do Povo Escocês (Scottish People’s Chart).

Oiçamos a apresentação do SLRC, que tem como jornal o The Citizen:

O SLRC original foi formado em 1900 para lutar pela representação política dos trabalhadores. No ano anterior, em 1899, o TUC Escocês (Trade Union Congress — Confederação dos Sindicatos Britânicos) juntou as uniões filiadas, a divisão escocesa do ILP e outras sociedades socialistas para coordenar a campanha para a representação através do Comité Parlamentar dos Trabalhadores Escoceses que mais tarde se juntou ao LRC.

Então como hoje, incerteza económica, desemprego e disrupção social ameaçava os trabalhadores. Hoje os que causam a crise, os banqueiros e os seus apoiantes corruptos estão a ser salvos nas costas da riqueza criada pelos trabalhadores. O LRC escocês foi reformado para que haja a certeza que a sua voz é ouvida ao promover um fórum onde socialistas e outros preparados para argumentar em defesa de um outro tipo de sociedade podem não só falar em conjunto, mas também actuar em conjunto em campanhas conjuntas como a Cartga do Povo Escocês.

Nós precisamos de:

·         Uma política económica baseada na propriedade pública e no controle democrático das secções chaves da economia, incluindo o fim de mais privatizações e PFIs, investimento directo em alojamento e serviços públicos camarários, a renacionalização dos caminhos de ferro, apoio para o serviço público de rádio e televisão e o desenvolvimento duma politica de ambiente e energia baseada na sustentabilidade ecológica e as necessidades das comunidades;

·         Uma política social baseada na redistribuição de riqueza e poder, incluindo a restauração total dos direitos dos sindicatos e um aumento no salário mínimo, uma pensão estatal decente e a restauração da sua ligação aos vencimentos, a restauração de bolsas estudantis, o fim das propinas suplementares e a selecção em educação, a restauração de poder local efectivo, a defesa dos direitos dos que pedem asilo, e a continuação da luta contra o racismo, a xenofobia e as ideias feitas contra os que têm deficiências;

·         Uma política estrangeira baseada na Paz, desarmamento nuclear, direitos humanos, o fim do apoio do Partido Trabalhista à direita do Partido Republicano nos USA, a retirada unilateral das forças Britânicas no Iraque, e a luta contra a globalização das grandes corporações.

Apresentado o SLRC, vejamos as grandes linhas de

A Carta do Povo Escocês

Nós precisamos de Mudança. Nós precisamos de Esperança.

Nós precisamos de uma Escócia mais justa e uma Bretanha mais justa.

Uma economia mais justa para uma sociedade mais justa:

Impostos progressivos sem fugas ou paraísos fiscais. Devemos possuir e controlar os bancos principais. Garantir todas as pensões, as hipotecas e poupanças. Indexar pensões e benefícios aos salários. Dar aos pensionistas transporte e aquecimento grátis. Aumentar o salário mínimo.

Mais e melhores empregos:

Defender e melhorar o emprego. Fazer um investimento massivo em novos postos de trabalho, particularmente em tecnologias verdes para beneficio das nossas crianças.

Casas decentes para todos:

Criar 250 000 novas casas de propriedade pública na Escócia nos próximos cinco anos. Parar com a retoma de casas. Controlar as rendas.

Salvar e melhorar os serviços:

Energia, Telecomunicações, Água e Transporte possuídos pos todos nós. Fim de fazer do NHS (National Health Service, Serviço Nacional de Saúde). Apoio aos trabalhadores do serviço público.

Para equidade e justiça

Igualdade para todos. Todos juntos contra racismo e descriminação. Salário igual para as mulheres. Terminemos com a pobreza infantil Libertem-se facilidades para jovens e crianças, educação e estágios para todos. Revogação das leis anti-sindicalismo para se lutar contra a pobreza e desigualdade.

Um futuro melhor começa agora:

Não mais sangue e dinheiro par a guerra. Regresso das tropas a casa. Não mais £biliões para armas nucleares. Não à renovação do Trident. Queremos investimento massivo num mundo mais verde e protegido. Façam desaparecer a economia da divida na Grã-Bretanha e perdoem as dividas dos pobres do Planeta.

A Carta do Povo Escocês constitui um documento impressionante, quando se sabe que em toda a Grã-Bretanha morrem todos os anos milhares de velhos pensionistas por não terem dinheiro para pagar aquecimento; aonde há 130 000 crianças que vivem ao relento por não terem alojamento; e aonde há já mulheres a porem os maridos fora de casa por estes estarem desempregados.

Esta carta exprime uma característica curiosa da sua paternidade: contrariamente ao que afirmou Lenine, o movimento operário britânico continua a organizar-se politicamente nos sindicatos e as organizações politicas e os seus dirigentes só têm legitimidade interna se surgirem duma legitimidade eleitoral da Classe Operaria. Esta tradição cartista pré-marxista se tem algumas virtualidades corre o risco de não ir muito longe, pois a acção politica se deve estar ancorada às organizações de massas dos trabalhadores não pode ser limitada por estas, pois a acção politica tem de transcender o movimento sindical como o afirmou Lenine no Que Fazer?.

De qualquer forma este documento se for seguido pode ter consequências muito importantes, conforme foi afirmado na Conferência do Morning Star escocês, The Economic Crisis: Who is to fix it?, sob a égide do CPB, que decorreu no passado domingo dia 1 de Março nas instalações do STUC de Glasgow, com a participação de várias organizações politicas comprometidas com este documento. É uma importante contribuição para a luta de todos nós, e esperamos que cumpra os seus objectivos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Reflexões Estratégicas Globais (III)

Barack Obama, Presidente Eleito: 
Somos e seremos sempre os Estados Unidos da América

O Mundo acordou ontem mais descontraído, respirando de alívio com a notícia de que Barack Obama seria o 44º Presidente dos USA, eleito numa votação histórica no dia anterior, 4 de Novembro. Era o tijolo que faltava no edifício capitalista: depois do afundamento económico, só faltava o afundamento político quase-definitivo dum dos seus mais fortes paradigmas, o neo-liberal. A era Ronald Reagan/ Margaret Thatcher chega assim definitivamente ao fim.

A vitória de Obama constitui uma forte vitória da democracia. O sistema eleitoral americano está desenhado para afastar os eleitores, e só favorecer os que mais directamente se interessam. Procura-se ainda limitar a votação das minorias étnicas, e dos economicamente excluídos. Na verdade não existe um registo eleitoral obrigatório, e quando se recenseiam, os eleitores declaram qual a sua filiação politica, Democrata ou Republicana, pois não há outras escolhas. Por outro lado a maquina eleitoral não é suficientemente bem controlada, podendo como se testou, um votante votar num candidato e sair o voto noutro. Há ainda as tentativa de impedir as pessoas de votar baseando-se em critérios fundiários, e não na natureza humana dos votantes.

Mas nesta eleição o eleitorado tomou a votação nas mãos. Eles estavam fartos de Bush e Cª, e trataram de se registar em números nunca vistos. Por outro lado organizaram o voto por comunidades, que votaram em massa em Obama. Foram os brancos que se olharam ao espelho e ao verem nas suas faces a cor centenária da opressão, resolveram mudar de vida; foram os negros apostados em realizar finalmente o sonho de Martin Luther King, Jr.; foram os hispânicos e asiáticos que estavam fartos de ser filhos dum Deus menor; foram as nações índias, que acharam que já vai sendo tempo de terem os direitos dos vencedores. E como se isto não fosse suficiente, transformaram os seus telefones em elementos de difusão da campanha de Obama: de lista telefónica na mão foram contactando os vizinhos, para os convencer a votar no candidato democrático.

O resultado foi o que se sabe: a vitoria. Foi a alegria esfusiante de brancos, negros, hispânicos, asiáticos e índios. Mas não foram só os americanos a ficar contentes. Como afirmou António Barreto no Público, O mundo inteiro, ou quase, deposita nele enormes esperanças. Ilimitadas, mesmo. É talvez o Presidente americano eleito com maior expectativa favorável no mundo inteiro. Espera-se dele que resolva as questões do Iraque, do Irão, do Afeganistão e do Paquistão. Do terrorismo internacional. Do Próximo Oriente. De grande parte de África. Do comércio internacional. De defesa da Europa e do Atlântico. Das relações difíceis com a Rússia. De proliferação das armas atómicas. De controlo da degradação do ambiente. De regulação das actividades financeiras internacionais. De controlo da especulação capitalista. Do aparente declínio da América. E de problemas internos urgentes: a saúde pública, a pobreza, as relações raciais e a crise da educação. No fim de contas trata-se do fim duma era aonde o princípio conservador de governo limitado deu largas à incompetência, amiguismo, corrupção, hipocrisia e falta de respeito pelo primado da lei, como em Guantanamo. E o começo de outra que estabeleça princípios mais favoráveis aos que trabalham.

O candidato, senador pelo Estado do Illinois, apesar de rico, é uma pessoa simples. No Senado escolhera modestamente o lugar onde se sentara antes o jovem senador Robert Kennedy. Nas paredes do seu pequeno gabinete do sétimo andar, dispôs as suas referências. Abraham Lincoln e John Fitzgerald Kennedy, Martin Luther King, Nelson Mandela e Gandhi, e uma inesperada fotografia de Mouhamed Ali em posição de combate.

Em 2004 afirmara:

Não existe uma América liberal ou uma América conservadora — existem os Estados Unidos da América. Não existe uma América negra e uma América branca e uma América latina e uma América asiática — existem os Estados Unidos da América. Adoramos o mesmo Deus todo-poderoso nos estados vermelhos [Republicanos] e nos estados azuis [Democratas]. (....) Não gostamos que os agentes federais andem a meter o nariz nas nossas vidas nos estados azuis e temos amigos gay nos estados vermelhos. Nós somos um povo...(…)

As vitórias da geração de 60 trouxeram a plena cidadania para as mulheres e as minorias, o reforço das liberdades individuais e a vontade de questionar a autoridade — fizeram da América um lugar melhor. Mas o que foi perdido no processo e tem de ser encontrado são as convicções partilhadas - esse sentimento de confiança mútua e fraternidade que faz de nós todos americanos.

E no discurso de afirmação da vitória, digno de Abraham Lincoln, para além de afirmar que a vitória pertencia aos que nele se empenharam e votaram, afirmou ainda:

Para os que desejam destruir o mundo: derrotá-los-emos. Para os que procuram paz e segurança: apoiá-los-emos. E para os que se perguntavam se o farol luminoso da América ainda é tão brilhante: hoje provámos uma vez mais que a força verdadeira da nossa nação vem, não do poder das armas ou da quantidade da nossa riqueza, mas do poder firme dos nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e uma esperança indestrutível.

Neste momento não queremos deixar de manifestar a nossa satisfação por este resultado, que não sendo o da construção do socialismo, permite-nos encarar com mais descontracção esse passo. Dá-nos satisfação saber que, por exemplo, no seio de milhões de americanos cidadãos exemplares como por exemplo Nichelle Nichols (a Uhura de StarTrek), Denzel Washington e Graham Green (o actor índio Oglala Sioux de Danças com Lobos, o imortal Ave que Esperneia) estão felizes.

Barack Obama tomará posse em 20 de Janeiro do próximo ano. Vamos acompanhar o seu percurso, e ver até onde as esperanças não são defraudadas. Neste sentido Obama, ao lançar a sua governação deverá dar sinais de que os actos mais negros da anterior era capitalista serão eliminados e repostos todos os ganhos civilizacionais dos trabalhadores, que lhes foram roubados, como se a eles não tivessem direito. É o mínimo que dele esperamos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Reflexões Estratégicas Globais (II)

Quosque tandem VPV abuteris patientia nostra?

Vasco Pulido Valente na sua última crónica no jornal “Publico” resolveu atacar o escritor e nosso camarada José Saramago em termos inaceitáveis, tendo por base afirmações do escritor que não estão devidamente referenciadas, e portanto não nos permitem avaliar do grau de desonestidade de Vasco Pulido Valente na sua citação.

Acontece que também a diferença de nível cultural entre José Saramago e Vasco Pulido Valente é assinalável, pois o nosso Nobel da Literatura, prémio ganho há 10 anos, é um gigante que foi atacado por um pigmeu. Evidentemente que não estamos a falar só da avaliação que Jerónimo de Sousa fez do premiado na festa promovida recentemente no Hotel Vitória. Estamos a falar do que está escrito, por exemplo, em http://en.wikipedia.org/wiki/José_Saramago (Wikipedia, versão inglesa) e que transcrevemos, traduzindo*: Usando temas tão imaginativos, Saramago sucintamente dirige-se aos assuntos mais sérios com empatia pela condição humana, e pelo isolamento da vida urbana contemporânea. As suas personagens com a sua necessidade de contactarem umas com as outras, formam relações e estreitam-nas com a comunidade; e também com a sua necessidade de individualidade, e encontrarem significado e dignidade fora das estruturas económicas e politicas. Harold Bloom afirmou que considera José Saramago "o novelista vivo mais prendado no mundo de hoje".

Cosmosophia Portucalensis quer deixar bem claro que não tolera, nem tolerará ataques ao Camarada José Saramago, nem ao Partido Comunista Português de que faz parte. Este texto é mais um ataque de anti-comunismo primário, que nos termos em que está redigido só pode gerar repulsa. Mas a questão de fundo que irritou Vasco Pulido Valente não pode passar em claro: tratar-se-ia da exigência colocada por José Saramago para que os responsáveis por este agravamento apocalíptico da crise do Capitalismo fossem incriminados judicialmente, para pagarem substantivamente as malfeitorias que fizeram, e que criaram imediatamente grande miséria entre os trabalhadores, e. g. desemprego, que deverá atingir qualquer coisa como 20 milhões de desempregados num futuro próximo em todo o Mundo. Vasco Pulido Valente entende que isto é uma medida persecutória indigna, para alegrar o povão.

A posição de Vasco Pulido Valente é uma posição de classe, digna daqueles que num passado próximo nos disseram que os deixássemos enriquecer à tripa forra, porque quanto mais ricos eles estivessem mais haveria para distribuir. Foi o que se viu. Substituindo o investimento produtivo pelo investimento especulativo, a economia produtiva pela economia de casino, a das bolsas, sonegando aumentos salariais, mas abrindo as portas ao endividamento de quem não tinha para pagar, propagando a ideia de que o interesse público era idêntico ao das suas contas bancárias, os grandes senhores do capital financeiro envolveram-se em actividades de gestão danosa de recursos que lhe foram confiados, e abriram as portas à crise actual. A posição de Vasco Pulido Valente é no fim de contas a de que eles estouraram o “seu” dinheiro. Na verdade quando isso leva à ameaça de paralisação da economia por falta de meios financeiros, o dinheiro pode ser “deles”, mas não o podem usar de qualquer maneira, porque dos seus abusos sofremos todos. Porém o dinheiro nem sequer é deles, mas sim fruto da acumulação da mais valia que resultou da exploração dos trabalhadores; e quando se dá o desastre, para restabelecer o stato quo, lá se vai buscar o que se retirou aos trabalhadores em impostos, e que estes com grande sentido cívico entregaram, pensando ser destinados ao Estado melhorar as suas condições de vida, na saúde, educação, segurança social, segurança, e outros.

Acresce ainda que todos estes acontecimentos mostraram, ainda que Vasco Pulido Valente não goste, que estes actos foram praticados para prejudicar os trabalhadores, para os tornar ainda mais dependentes dos patrões, para os impossibilitar de pôr em causa o Capitalismo, pois foram acompanhados por um vasto conjunto de decisões que procuram subordinar os trabalhadores de corpo, vida e alma aos patrões, não lhes deixando réstia de autonomia. O Código do Trabalho em Portugal aí está para o mostrar. A qualidade da actividade social passou a ter uma valorização altamente ideológica: o melhor era o que mais subordinava os seus interesses próprios aos interesses exploradores do grande patronato, não o que ao exercer as suas funções era mais cidadão, mas o que cumpria mais acriticamente ordens reforçando o capitalismo.

É por tudo isto que a postura de José Saramago, vilipendiada por Vasco Pulido Valente, é a postura de todos os que exigem saber como tudo isto foi possível, exigindo a punição exemplar dos culpados. Não é só a posição dos comunistas, mas de todas as pessoas que querem um mundo mais fraterno, que não estão para ver o fruto do seu trabalho ir pelo cano de esgoto do capitalismo abaixo, e o querem ver traduzido em mais bem estar material para todos os que se esforçam e trabalham. No fim de contas a de todos aqueles que querem um reforço da cidadania, uma prática de serviço público cidadão. Mas isto só será possível com a equação duma democracia avançada rumo ao Socialismo que a situação actual exige cada vez mais, democracia aonde criaturas como Vasco Pulido Valente não podem ter lugar.

*Texto Inglês: Using such imaginative themes, Saramago succinctly addresses the most serious of subject matters with empathy for the human condition and for the isolation of contemporary urban life. His characters struggle with their need to connect with one another, form relations and bond as a community; and also with their need for individuality, and to find meaning and dignity outside of political and economic structures. Harold Bloom has stated that he considers José Saramago the "most gifted novelist alive in the world today".

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Reflexões Estratégicas Globais (I)

Crónica de um desastre anunciado

A decisão da administração norte-americana de salvar da falência os dois grandes potentados da alta finança, Fannie Mae e Fannie Mac, constitui um momento histórico da maior importância. Ela consagra a total falência do projecto neo-liberal para a condução do capitalismo, o fim duma época iniciada em 1979, com a entronização de Margaret Thatcher como Primeira-Ministra do Reino Unido. Trata-se do fim dum fundamentalismo económico, o domínio absoluto da economia de casino, e do capital financeiro sobre todas as formas de Capital. Com Thatcher e mais tarde Ronald Reagan, o que permitisse aumentar a taxa de lucro, e a supremacia do primado da alta finança, era benéfico para todos. O Sistema teve a suprema arrogância de ignorar a instabilidade inerente à cada vez maior rotatividade do capital financeiro, mas o estoiro das várias bolhas em que se tornou a economia capitalista no plano global deu cabo da estabilidade do sistema capitalista, e lançaram-no numa crise profunda.

Há muito que Fidel Castro assinalara que não era possível manter vivo e de boa saúde um sistema que transacciona diariamente em bolsa 1 bilião de dólares de acções valor superior a tudo o que se produzia. Tal só era possível porque os pagamentos dessas transacções eram diferidos no tempo, sendo possível transaccionar o mesmo título várias vezes em sucessão sem ele ter ainda saído dos cofres do primeiro dono. Esta característica da operacionalidade bolsista era altamente instável pois bastava que um dos elos da cadeia não pagasse para que o processo estourasse.

Não foi no entanto por aqui que o sistema foi ao tapete, fazendo lembrar aquele doente que passou toda a vida a tratar o seu coração doente… e vem a morrer de pancreatite aguda!!! O sistema estoirou por um conjunto de burrices inacreditáveis impróprias de dirigentes financeiros tão qualificados, profundamente arrogantes, e acreditando que a sua ganância produziria milagres económico-financeiros. Os bancos e mais sociedades financeiras entregaram verbas fabulosas a quem queria comprar casa para poder viver, e que não tinham condições para as pagar a curto, médio e longo prazo. O mercado imobiliário tornou-se um el-dorado que parecia não ter fundo. Foi uma das áreas de grande concentração de investimento. Para aumentarem os lucros sobrevalorizaram as casas. Evidentemente que as casas eram a garantia, na esperança de que se os empréstimos não fossem pagos, as casas passariam para as mãos dos credores que as venderiam em hasta pública, e o dinheiro estava salvo.

O erro foi não terem em conta a lei dos grandes números, o que sucederia se um número excessivo de devedores não pagassem as casas. Claro que as casas iam a leilão, mas porque eram demasiadas o preço caía em flecha, não cobrindo os empréstimos atribuídos. Daqui para a crise imobiliária foi um passo de formiga.

As empresas financeiras do imobiliário Fannie Mae e Fannie Mac ficaram impossibilitadas de ter lucros, e os seus prejuízos punham em causa a sua existência. O Sistema viu-se confrontado com a sua perda: deixar afundá-las era afundar largos sectores da economia que transcendia as operações estritamente fundiárias. E o Estado, representante do grande capital, lançou mão dos impostos, para salvar o pescoço duns quantos, que seriam muitos mais se tal operação não fosse feita: Fannie Mae e Fannie Mac foram salvas, mas com isso morreu a ilusão de que na economia de mercado todos os perdedores são equivalentes, e que todos têm de arrostar com as consequências dos seus actos. Na verdade uns são mais do que outros.

Estas duas companhias americanas são só a ponta do iceberg da crise. Muitas outras companhias um pouco por toda a parte estão a tremer de medo porque o número de maus pagadores aumenta, e elas não sabem o que fazer à vida. A situação é tão grave que por causa disto se instalou uma crise política no Reino Unido.

Tudo isto poderia ser ultrapassado, não fora a existência de outros problemas. A segunda peça da crise foi o aumento vertiginoso do preço do preço do petróleo. A procura era seguramente muito maior que a oferta, devido ao aparecimento das economias emergentes, e as reservas de crude começaram a desaparecer lentamente. O preço disparou especulativamente.

Com a crise do imobiliário e a subida dos preços da energia, o Sistema virou-se para os bens alimentares, como fonte de estabilidade dos preços, Mas alguns deles eram fonte de pressão especulativa devido à capacidade de ser fruto de combustíveis, e a sua procura como reserva monetária levou à espiral inflacionista. E aqui atingiu-se a obscenidade económica, ao fazer subir os preços de primeira necessidade para satisfazer a gula do capital financeiro, lançando na miséria largos sectores das populações normalmente as mais desfavorecidas, incapazes de poder comprar os bens de primeira necessidade.

Mas os centros de programação estratégica do capitalismo não dormem. Como este quadro de crise global é susceptível de provocar uma onda de instabilidade social, pois a eles juntavam-se as péssimas consequências sociais dos “ajustes” que vinham a ser feitos para que os valores do mercado dominassem todos os cantos mais recônditos da nossas vidas, os referidos centros já concluíram que o grande problema é o fundamentalismo do mercado e sem descanso procuram meios de o conjurar.

O domínio do capital financeiro estabelecido em 1979 por Margaret Thatcher e mais tarde reforçada pela subida ao poder de Ronald Reagan como Presidente dos USA, teve três fases. A primeira de 1979 a 1989 completou o referido domínio e destruiu a União Soviética com fortes cumplicidades internas. O segundo período vai de 1989 até 1999 e traduz a adaptação que o sistema teve de efectuar para reconverter todos os braços da economia capitalista que resultavam da existência dos dois sistemas. O terceiro período, desde 1999, é consequência dum Sistema em velocidade galopante e a praticar todos os desmandos, julgando que pode fazer tudo o que lhe apetece, à custa do sofrimento das massas trabalhadoras. Ora o fim do consulado Bush é o crepúsculo dos deuses e a decisão de salvar Fannie Mae e Fannie Mac um espantoso canto de cisne.

Os centros de programação estratégica preparam-se para reformular todo o sistema suportando-se no que pensam ser a passividade global dos trabalhadores, sem uma perspectiva global clara de luta. É este o fim da administração Barak Obama a eleger no próximo Outono, lá para Novembro. O sucesso que tiverem vai ser consequência da capacidade de mobilizar todos aqueles, que sempre viveram na dependência do Sistema, e que em vez de darem cobertura à sua pretensa racionalização, potenciem a acção de massas em todos os teatros aonde tal seja objectivamente possível, como é o caso português na luta que vimos travando contra a politica de direita e de espoliação dos mais elementares direitos dos trabalhadores pelo governo de Sócrates.

É necessário e urgente que todos pensem que o Sistema capitalista não tem qualquer capacidade de ser racionalizado e que ele pode e deve ser substituído. Ele não tem por fim a felicidade de toda a Humanidade, mas a concentração da capacidade económica nas mãos de uns quantos. E por isso é preciso que assumamos que as mudanças são antropológicas, pois a sociedade de classes nas suas variadas formas dominou a História da Humanidade. É preciso começar a dar os passos para uma nova antropologia, a sociedade da sabedoria, o socialismo, assumindo o carácter colectivo do saber acumulado ao longo da História. Afinal essa nova sociedade é a que nos põe a coberto de indivíduos desprezíveis que vivem à nossa custa, e às nossas costas, e que nos põe a salvo de estarmos sempre sem sossego, na dúvida se amanhã ainda temos trabalho que suporte o nosso sustento.