quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Cartas Escocesas (IV)

O Santo Salvador do Sistema

O Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, não se está a sair nada mal da sua nova postura. De fiel executante das mais agressivas politicas neo-liberais, como apoiante desse aborto teórico que era o New Labour, ao serviço dos grandes interesses económicos, Gordon Brown continua a sua cruzada em prol da redenção do capitalismo. E quando se deu o colapso do sistema financeiro global, não teve problemas em sair em defesa do Sistema, fazendo propostas para a sua imediata redenção.

O esforço foi tão bem conseguido que deixou de se falar na sua substituição à frente do Governo e do Partido. A Europa nunca tinha visto um sábio tão grande, cujo único mérito foi propor o óbvio, uma intervenção que desarticulasse o grande capital financeiro, e o pusesse na dependência da actividade produtiva. Os outros, julgando que o Sistema depois de colapsar ainda tinha condições para prosseguir na sua actividade especulativa e a sua política de sugar dinheiro a quem não o tinha, não pensaram em intervenções tão profundas.

E como cereja no topo do bolo a semana passada ganhou a eleição parcial na circunscrição de Glenrothes, na Escócia. Segundo contam umas melgas, na noite anterior pensava-se que a eleição estava perdida, devido à péssima imagem adquirida ao longo do tempo pela penalização dos trabalhadores. Mas na votação, 19 946 votaram Labour, 13 209, Partido Nacionalista Escocês, e 1 381 Conservador. Ele apressou-se a afirmar, antes de partir para Bruxelas para a cimeira extraordinária da União Europeia: — O que depreendo desta eleição parcial é que as pessoas estão dispostas a apoiar os governos que as ajudem a atravessar esta crise económica e que lhes ofereçam uma verdadeiro apoio. Desta forma continuamos a considerar o processo político como uma actividade de mercado aonde os candidatos expõem as suas ideias, ou seja, os seus produtos, e depois os eleitores escolhem os que melhor lhes interessa naquele momento. Enquanto for assim, enquanto a democracia representativa não for acompanhada por uma forte e robusta democracia participativa com quem dialogue, não vamos a lado nenhum, e continuaremos a apoiar estes farsantes, que hoje dizem uma coisa, e amanhã outra, conforme o lado de onde melhor sopra o vento.

Encorajado pelos seus êxitos radiosos, o substituto de Tony Blair, responsável pela política financeira deste, que vai obrigar o Tesouro de todos os países a investir 2.8 biliões de libras para repor o stato quo, sem impedir mais 2 milhões de desempregados só no Reino Unido, quando antes estas verbas não existiam para melhorar a vida dos trabalhadores, afirma-se agora como um animal de Esquerda, entendendo com isso a perspectiva duma total e completa reconversão do Capitalismo, com uma nova Ética. E como não poderia deixar de ser, apoia-se na eleição de Barack Obama, que vê como o ungido para levar a cabo tão exaltante tarefa. Descobriu agora que a pobre classe média sofreu tratos de polé com os apoiantes da especulação financeira, e que nos novos tempos deverá participar mais na divisão da mais valia produzida. E vai daí lançou-se numa estonteante missão de sugerir a Barack Obama o que este tem a fazer, sem que ninguém lhe tenha encomendado o sermão.

E a luta de classes onde está ela? Aonde está a missão histórica do proletariado? Evidentemente que essas questões não devem ser equacionadas, pela simples razão que distraem as pessoas dos magnos problemas que uma tão ciclópica tarefa engendra e que urge levar a cabo. Porém ao não colocarem em linha de fundo o carácter explorador do Capitalismo, que quer seja dominado pela produção ou pela especulação, os apóstolos da súbita redenção esquecem-se que o Sistema que amam tem crises cíclicas, e com tanta participação e parceria dos trabalhadores que eles pretendem mobilizar ainda não conseguiram explicar qual a razão porque é necessário que haja uma classe exploradora, que embolse a mais valia, e/ou que a redistribua a seu bel-prazer.

Sem prejuízo de que muitas das actividades que se prefiguram no futuro próximo são absolutamente necessárias e têm de ser levadas a cabo, a questão essencial que urge resolver é como vamos acabar com a exploração global, e pôr fim a 40 séculos de exploração humana, aonde uma minoria se apropria do que a maioria produz. E aonde o fim da actividade é a libertação da Humanidade, e não o beneficio duns quantos.

sábado, 8 de novembro de 2008

Reflexões Estratégicas Domésticas (IV)

120000 Professores em Lisboa:
Sim, nós podemos!

Os Professores portugueses estão apostados em provar que as mais sensatas previsões políticas não lhes são aplicáveis, e ainda bem. No passado mês de Março, no dia 8, os professores portugueses desceram à rua para pôr fim à insanidade reinante no Governo, de que são vitimas, consequência de um perigoso ódio a esta classe profissional. Foram 100 000 os manifestantes, do norte ao sul do país, 66% dos profissionais. Parecia que tais números eram inultrapassáveis, e que tudo o que conseguissem fazer a seguir estaria aquém deste número. Pois a plataforma Sindical dos Professores acaba de pôr na rua 120 000, ou seja 85% do total. A quase totalidade não está portanto excluída.

Numa visão perfeitamente irresponsável, o Governo apostara em domesticar os professores, brandindo junto da opinião pública a ideia de que se os níveis de educação e instrução são tão baixos em Portugal, a culpa é dos professores. A partir daí, e para melhor os dividir e controlar, separou-os em duas classes, uma a de professores tout-court, e outra de Professores titular. Esta ultima classe surgiu, qual coelho da cartola, do conceito de qualidade profissional dos professores que o ministério tinha, que a classe contestou de imediato. E o dislate era tal que os próprios beneficiários acharam imprópria a sua criação.

O assunto agravou-se porque este controle passava por uma avaliação, que evidentemente era estranha para professores. Na verdade nenhum professor bom da cabeça dirá a um grupo de alunos: — Meus senhores e minha senhoras qualquer que seja a vossa prestação, eu só poderei dar 20s a uns tantos, 19s a mais alguns e assim por diante. Porém é esta a lógica da avaliação governamental: Excelentes ainda que fossem todos só o podem ser 5%; muito bons mais uns quantos; Bons podem ser todos os restantes. E esta avaliação utiliza metodologias extraordinárias, que obrigam a intermináveis discussões e reuniões de organização: mais de 700 peças de observação, quase 2000 páginas para preencher, 14 páginas de objectivos sendo que a cada um corresponde um plano. Numa decisão nunca antes praticada, um dos pontos da avaliação era os professores avaliadores irem presenciar aulas dos avaliados, e daí tirar conclusões sobre a qualidade das mesmas. Tão ciclópica tarefa só poderá ser conduzida com a ajuda dum super-computador, daqueles que são usados pelas forças armadas dos USA, ou pelos especialistas de metereologia.

Perante a oposição dos professores, o Governo caiu na posição demagógica de dizer que os professores não queriam ser avaliados, denegrindo a sua imagem junto da população. Esta afirmação irresponsável é atentatória da dignidade da classe. Nunca os professores se negaram a ser avaliados, mas desejam estar de acordo com os objectivos da avaliação.

A luta dos professores que ainda está em crescendo, vem chamar uma vez mais para o facto da avaliação dos professores:

·         Se debruçar sobre a actividade dos professores, tendo esta o objectivo de serviço público, e como tal são os próprios que estão interessados em que se saiba que actividades desenvolvem e como as desenvolvem;

·         Deve ser conduzida interna e externamente ao exercício da profissão, mas tem de ter em conta o estado das comunidades aonde se exerce, os seus níveis culturais, as expectativas que procuram ver satisfeitas; mas têm de ter em conta também os meios disponibilizados para que o professor cumpra a sua missão, incluindo a qualidade do meio escolar;

·         Deve ser simples e eficaz na sua metodologia, impedindo que os professores se distraiam excessivamente com tais avaliações;

·         Os resultados da avaliação devem ser usados para uma melhoria das funções docentes, para o crescimento intelectual e humano, para a ultrapassagem de estrangulamentos detectados, e nunca para uma punição dos professores, e/ou a consequente desresponsabilização doutros agentes no terreno, caso dos alunos e respectivos progenitores, como pretende o actual Governo.

Os professores são elementos indispensáveis ao Desenvolvimento. No actual momento político, aonde os trabalhadores terão de ser chamados a contribuir como parceiros na reorganização necessária da Economia e da Sociedade, esta política do Governo de Sócrates de domesticação dos agentes de uma profissão, encontra-se ao arrepio do que é desejável. Os professores têm também de estar presentes, e exporem em liberdade os seus pontos de vista. Mas não poderão dialogar se sentirem que na sua frente, estão não interlocutores responsáveis, mas algozes. Por isso a sua luta tem de continuar, porque a sua vitoria é a vitoria da cidadania, e da actuação responsável.

E daí que o Governo deverá mudar de política, pois se não teremos de mudar de Governo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Reflexões Estratégicas Globais (III)

Barack Obama, Presidente Eleito: 
Somos e seremos sempre os Estados Unidos da América

O Mundo acordou ontem mais descontraído, respirando de alívio com a notícia de que Barack Obama seria o 44º Presidente dos USA, eleito numa votação histórica no dia anterior, 4 de Novembro. Era o tijolo que faltava no edifício capitalista: depois do afundamento económico, só faltava o afundamento político quase-definitivo dum dos seus mais fortes paradigmas, o neo-liberal. A era Ronald Reagan/ Margaret Thatcher chega assim definitivamente ao fim.

A vitória de Obama constitui uma forte vitória da democracia. O sistema eleitoral americano está desenhado para afastar os eleitores, e só favorecer os que mais directamente se interessam. Procura-se ainda limitar a votação das minorias étnicas, e dos economicamente excluídos. Na verdade não existe um registo eleitoral obrigatório, e quando se recenseiam, os eleitores declaram qual a sua filiação politica, Democrata ou Republicana, pois não há outras escolhas. Por outro lado a maquina eleitoral não é suficientemente bem controlada, podendo como se testou, um votante votar num candidato e sair o voto noutro. Há ainda as tentativa de impedir as pessoas de votar baseando-se em critérios fundiários, e não na natureza humana dos votantes.

Mas nesta eleição o eleitorado tomou a votação nas mãos. Eles estavam fartos de Bush e Cª, e trataram de se registar em números nunca vistos. Por outro lado organizaram o voto por comunidades, que votaram em massa em Obama. Foram os brancos que se olharam ao espelho e ao verem nas suas faces a cor centenária da opressão, resolveram mudar de vida; foram os negros apostados em realizar finalmente o sonho de Martin Luther King, Jr.; foram os hispânicos e asiáticos que estavam fartos de ser filhos dum Deus menor; foram as nações índias, que acharam que já vai sendo tempo de terem os direitos dos vencedores. E como se isto não fosse suficiente, transformaram os seus telefones em elementos de difusão da campanha de Obama: de lista telefónica na mão foram contactando os vizinhos, para os convencer a votar no candidato democrático.

O resultado foi o que se sabe: a vitoria. Foi a alegria esfusiante de brancos, negros, hispânicos, asiáticos e índios. Mas não foram só os americanos a ficar contentes. Como afirmou António Barreto no Público, O mundo inteiro, ou quase, deposita nele enormes esperanças. Ilimitadas, mesmo. É talvez o Presidente americano eleito com maior expectativa favorável no mundo inteiro. Espera-se dele que resolva as questões do Iraque, do Irão, do Afeganistão e do Paquistão. Do terrorismo internacional. Do Próximo Oriente. De grande parte de África. Do comércio internacional. De defesa da Europa e do Atlântico. Das relações difíceis com a Rússia. De proliferação das armas atómicas. De controlo da degradação do ambiente. De regulação das actividades financeiras internacionais. De controlo da especulação capitalista. Do aparente declínio da América. E de problemas internos urgentes: a saúde pública, a pobreza, as relações raciais e a crise da educação. No fim de contas trata-se do fim duma era aonde o princípio conservador de governo limitado deu largas à incompetência, amiguismo, corrupção, hipocrisia e falta de respeito pelo primado da lei, como em Guantanamo. E o começo de outra que estabeleça princípios mais favoráveis aos que trabalham.

O candidato, senador pelo Estado do Illinois, apesar de rico, é uma pessoa simples. No Senado escolhera modestamente o lugar onde se sentara antes o jovem senador Robert Kennedy. Nas paredes do seu pequeno gabinete do sétimo andar, dispôs as suas referências. Abraham Lincoln e John Fitzgerald Kennedy, Martin Luther King, Nelson Mandela e Gandhi, e uma inesperada fotografia de Mouhamed Ali em posição de combate.

Em 2004 afirmara:

Não existe uma América liberal ou uma América conservadora — existem os Estados Unidos da América. Não existe uma América negra e uma América branca e uma América latina e uma América asiática — existem os Estados Unidos da América. Adoramos o mesmo Deus todo-poderoso nos estados vermelhos [Republicanos] e nos estados azuis [Democratas]. (....) Não gostamos que os agentes federais andem a meter o nariz nas nossas vidas nos estados azuis e temos amigos gay nos estados vermelhos. Nós somos um povo...(…)

As vitórias da geração de 60 trouxeram a plena cidadania para as mulheres e as minorias, o reforço das liberdades individuais e a vontade de questionar a autoridade — fizeram da América um lugar melhor. Mas o que foi perdido no processo e tem de ser encontrado são as convicções partilhadas - esse sentimento de confiança mútua e fraternidade que faz de nós todos americanos.

E no discurso de afirmação da vitória, digno de Abraham Lincoln, para além de afirmar que a vitória pertencia aos que nele se empenharam e votaram, afirmou ainda:

Para os que desejam destruir o mundo: derrotá-los-emos. Para os que procuram paz e segurança: apoiá-los-emos. E para os que se perguntavam se o farol luminoso da América ainda é tão brilhante: hoje provámos uma vez mais que a força verdadeira da nossa nação vem, não do poder das armas ou da quantidade da nossa riqueza, mas do poder firme dos nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e uma esperança indestrutível.

Neste momento não queremos deixar de manifestar a nossa satisfação por este resultado, que não sendo o da construção do socialismo, permite-nos encarar com mais descontracção esse passo. Dá-nos satisfação saber que, por exemplo, no seio de milhões de americanos cidadãos exemplares como por exemplo Nichelle Nichols (a Uhura de StarTrek), Denzel Washington e Graham Green (o actor índio Oglala Sioux de Danças com Lobos, o imortal Ave que Esperneia) estão felizes.

Barack Obama tomará posse em 20 de Janeiro do próximo ano. Vamos acompanhar o seu percurso, e ver até onde as esperanças não são defraudadas. Neste sentido Obama, ao lançar a sua governação deverá dar sinais de que os actos mais negros da anterior era capitalista serão eliminados e repostos todos os ganhos civilizacionais dos trabalhadores, que lhes foram roubados, como se a eles não tivessem direito. É o mínimo que dele esperamos.

sábado, 25 de outubro de 2008

Cartas Escocesas(III)

O Grão de Areia que Encravou a Máquina

A cena é extraordinariamente gótica. Alain Greenspan ao prestar declarações na Câmara dos Representantes do Congresso dos USA não podia ter sido mais claro: o neo-liberalismo continha um erro. Perante tão desconcertante declaração todos ficaram à espera que o Papa da alta finança nos esclarecesse do erro.

E qual seria ele, talvez ter ousado equacionar níveis de exploração nunca vistos, criar expectativas impossíveis? Ter estabelecido regras de convivência social que cada vez mais se afirmam como anti-sociais? Não caros leitores, a falha do sistema foi não ter havido supervisão. E porquê, seria que Alain Greenspan, o homem que dominara a reserva federal teria tido um rebate de consciência e passara-se para o lado dos trabalhadores? Ele que aceitara que os donos do dinheiro fizessem toda a casta de tropelias, teria agora uma nova postura?

Também não caros leitores. O erro, o grão de areia no relógio, foi não se ter protegido eficazmente os interesses dos accionistas, que viram assim o seu dinheiro esfumar-se. Tudo tinha funcionado bem até então, porque diabo logo agora haveria de correr mal? Pois é, mas Alain Greenspan não quis assumir entre outras coisas que tudo se passou porque o Sistema neo-liberal precisava de aumentar as velocidades de rotação do dinheiro e eram precisos relaxar os cuidados mais elementares. E foi o que se viu.

Repare-se que o mea culpa de Alain Greenspan não foi dirigido ao mal-estar provocado em milhões de seres humanos pelo colapso da economia de casino, e dos transtornos pessoais que criou. O que preocupou Greenspan foi os ricos não poder ser mais ricos. O próprio conceito de supervisão era um conceito reservado aos poderosos e não uma decorrência da democracia, e exercida também pelos representantes dos trabalhadores. E é esta a postura de classe que é preciso combater.

Entretanto os políticos que até agora simbolizavam o sistema explorador lá continuam na sua vidinha, alguns como o Primeiro Ministro Britânico Gordon Brown esperando que as propostas que fez para restabelecer o stato quo façam esquecer o longo período de inoperância e conivência que permitiu este estado de coisas. A verdadeira natureza da social-democracia surge em todo o seu esplendor, quando o sistema capitalista é salvo… por um social-democrata. O Sarkosy está contentíssimo com a prestação de Gordon Brown e isso reforçou a ligação Paris-Londres. Mas a injecção de dinheiro no sistema persiste em esquecer os infelizes que são as principais vítimas da crise. Para salvar os bancos, globalmente vão ser precisos aí um 3 biliões de USDólares. Mas isto só repõe o stato quo, porque seria preciso tornar solventes os que continuam sem poder pagar as suas casas, com a agravante de que muitos desses infelizes não só tinham baixos rendimentos, mas também agora vão perdê-los fruto do desemprego. E isso são mais 4 biliões de USdólares. No conjunto aí metade do Produto Nacional Bruto dos USA.

Mas nem tudo é mau nesta vida. Recordando Almeida Garrett (e a sua piada: Foge cão que te fazem barão; para onde se me fazem visconde?), a grande estrela do New Labour, o tal partido de esquerda que se propôs defender simultaneamente os interesses dos trabalhadores e dos patrões, Peter Mandelson, recentemente feito barão para poder entrar no Governo Britânico, pois se assim não fosse não podia ser ministro por não ser deputado, mantém ligações complexas com banqueiros e novos milionários do Leste, com quem discute despudoradamente os negócios da governação pública, sem que ninguém queira saber o que se passa. Para este pessoal não há crise.

E enquanto isto for assim não há sonho de reconstrução do Sistema que resista…

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Reflexões Estratégicas Globais (II)

Quosque tandem VPV abuteris patientia nostra?

Vasco Pulido Valente na sua última crónica no jornal “Publico” resolveu atacar o escritor e nosso camarada José Saramago em termos inaceitáveis, tendo por base afirmações do escritor que não estão devidamente referenciadas, e portanto não nos permitem avaliar do grau de desonestidade de Vasco Pulido Valente na sua citação.

Acontece que também a diferença de nível cultural entre José Saramago e Vasco Pulido Valente é assinalável, pois o nosso Nobel da Literatura, prémio ganho há 10 anos, é um gigante que foi atacado por um pigmeu. Evidentemente que não estamos a falar só da avaliação que Jerónimo de Sousa fez do premiado na festa promovida recentemente no Hotel Vitória. Estamos a falar do que está escrito, por exemplo, em http://en.wikipedia.org/wiki/José_Saramago (Wikipedia, versão inglesa) e que transcrevemos, traduzindo*: Usando temas tão imaginativos, Saramago sucintamente dirige-se aos assuntos mais sérios com empatia pela condição humana, e pelo isolamento da vida urbana contemporânea. As suas personagens com a sua necessidade de contactarem umas com as outras, formam relações e estreitam-nas com a comunidade; e também com a sua necessidade de individualidade, e encontrarem significado e dignidade fora das estruturas económicas e politicas. Harold Bloom afirmou que considera José Saramago "o novelista vivo mais prendado no mundo de hoje".

Cosmosophia Portucalensis quer deixar bem claro que não tolera, nem tolerará ataques ao Camarada José Saramago, nem ao Partido Comunista Português de que faz parte. Este texto é mais um ataque de anti-comunismo primário, que nos termos em que está redigido só pode gerar repulsa. Mas a questão de fundo que irritou Vasco Pulido Valente não pode passar em claro: tratar-se-ia da exigência colocada por José Saramago para que os responsáveis por este agravamento apocalíptico da crise do Capitalismo fossem incriminados judicialmente, para pagarem substantivamente as malfeitorias que fizeram, e que criaram imediatamente grande miséria entre os trabalhadores, e. g. desemprego, que deverá atingir qualquer coisa como 20 milhões de desempregados num futuro próximo em todo o Mundo. Vasco Pulido Valente entende que isto é uma medida persecutória indigna, para alegrar o povão.

A posição de Vasco Pulido Valente é uma posição de classe, digna daqueles que num passado próximo nos disseram que os deixássemos enriquecer à tripa forra, porque quanto mais ricos eles estivessem mais haveria para distribuir. Foi o que se viu. Substituindo o investimento produtivo pelo investimento especulativo, a economia produtiva pela economia de casino, a das bolsas, sonegando aumentos salariais, mas abrindo as portas ao endividamento de quem não tinha para pagar, propagando a ideia de que o interesse público era idêntico ao das suas contas bancárias, os grandes senhores do capital financeiro envolveram-se em actividades de gestão danosa de recursos que lhe foram confiados, e abriram as portas à crise actual. A posição de Vasco Pulido Valente é no fim de contas a de que eles estouraram o “seu” dinheiro. Na verdade quando isso leva à ameaça de paralisação da economia por falta de meios financeiros, o dinheiro pode ser “deles”, mas não o podem usar de qualquer maneira, porque dos seus abusos sofremos todos. Porém o dinheiro nem sequer é deles, mas sim fruto da acumulação da mais valia que resultou da exploração dos trabalhadores; e quando se dá o desastre, para restabelecer o stato quo, lá se vai buscar o que se retirou aos trabalhadores em impostos, e que estes com grande sentido cívico entregaram, pensando ser destinados ao Estado melhorar as suas condições de vida, na saúde, educação, segurança social, segurança, e outros.

Acresce ainda que todos estes acontecimentos mostraram, ainda que Vasco Pulido Valente não goste, que estes actos foram praticados para prejudicar os trabalhadores, para os tornar ainda mais dependentes dos patrões, para os impossibilitar de pôr em causa o Capitalismo, pois foram acompanhados por um vasto conjunto de decisões que procuram subordinar os trabalhadores de corpo, vida e alma aos patrões, não lhes deixando réstia de autonomia. O Código do Trabalho em Portugal aí está para o mostrar. A qualidade da actividade social passou a ter uma valorização altamente ideológica: o melhor era o que mais subordinava os seus interesses próprios aos interesses exploradores do grande patronato, não o que ao exercer as suas funções era mais cidadão, mas o que cumpria mais acriticamente ordens reforçando o capitalismo.

É por tudo isto que a postura de José Saramago, vilipendiada por Vasco Pulido Valente, é a postura de todos os que exigem saber como tudo isto foi possível, exigindo a punição exemplar dos culpados. Não é só a posição dos comunistas, mas de todas as pessoas que querem um mundo mais fraterno, que não estão para ver o fruto do seu trabalho ir pelo cano de esgoto do capitalismo abaixo, e o querem ver traduzido em mais bem estar material para todos os que se esforçam e trabalham. No fim de contas a de todos aqueles que querem um reforço da cidadania, uma prática de serviço público cidadão. Mas isto só será possível com a equação duma democracia avançada rumo ao Socialismo que a situação actual exige cada vez mais, democracia aonde criaturas como Vasco Pulido Valente não podem ter lugar.

*Texto Inglês: Using such imaginative themes, Saramago succinctly addresses the most serious of subject matters with empathy for the human condition and for the isolation of contemporary urban life. His characters struggle with their need to connect with one another, form relations and bond as a community; and also with their need for individuality, and to find meaning and dignity outside of political and economic structures. Harold Bloom has stated that he considers José Saramago the "most gifted novelist alive in the world today".

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

XVIII Congresso do PCP (II)

Para publicação no Avante!

Sobre o Sistema Universitário/Politécnico 

As Teses para o XVIII Congresso, poderiam ser imediatamente aprovadas, pois são um excelente elemento de mobilização e acção politica paras os próximos tempos, ao afirmarem o PCP como um partido de projecto e de propostas, com um notável travejamento estratégico. No entanto exigem ser aperfeiçoadas na área do Sistema Universitário/Politécnico.

É preciso colocar em destaque a importância da nova economia ligada às novas tecnologias; a importância do Sistema Educativo para a formação integral dos indivíduos e a sua intervenção na economia enquanto trabalhadores, e do Sistema Universitário/Politécnico para a melhoria desta formação integral e a capacidade de inovação na sociedade que potencie o desenvolvimento de Portugal e a melhoria de vida e do bem-estar dos Portugueses. A localização certa desta questão deverá ser próximo do ponto 2.2.20.

Por outro lado, em vez de se centrar a análise no Sistema Universitário/Politécnico, e depois nas suas várias actividades, e.g. o Ensino Superior e a Investigação, as Teses persistem em tratar o Ensino Superior como sua a actividade dominante, subordinando-lhe as restantes actividades como é feito no ponto 2.2.56, até ao ponto 2.2.57, e nunca falando nas Universidades e Politécnicos, como se tal menção fosse desonrosa. Isto é um erro grave. O Partido mostra não entender não poder continuar a discutir o Ensino Superior subordinando-lhe todas as restantes actividades do Sistema enquadrador, que estão muito para além do Ensino Superior. Além do debate de questões políticas centrais para a vida do país, promovendo a programação estratégica prospectiva e pró-activa do seu desenvolvimento, a importância da Investigação tem de ser afirmada, pois ela é uma mola para o desenvolvimento do país, é ela que configura o 2º e 3º Ciclos de Bolonha do Ensino Superior, e também referência para os restantes graus de ensino. Por outro lado a Investigação configura um dos maiores aleijões no sistema Universitário/Politécnico, com o poder politico a forçar a sua domesticação neo-liberal, negando a autonomia científica das instituições, e colocando mesmo professores na prateleira, sem quaisquer meios de fazer investigação, prejudicando as respectivas carreiras.

Com esta orientação política, o Partido reduz estas instituições a Liceus Superiores, e entra em colisão com a luta dos docentes e investigadores (e não só docentes como afirma o ponto 3.4.5) por um sistema Universitário/Politécnico ao serviço de Portugal e dos Portugueses, discutindo naturalmente não só o Ensino Superior, mas também todas as outras actividades que o transcendem. Nenhum camarada académico é capaz de justificar esta obstinação do PCP, e em publico ao discutir estas questões, usa, não a orientação partidária, mas sim a dos seus colegas… E como recrutar docentes e investigadores, se não se reconhecem na linguagem que persistimos em falar?

A resolução politica da V AOSI da ORL, e a sua filosofia são a referência. Na verdade lá estão referidos todas as malfeitorias praticadas contra o Sistema Universitário/Politécnico, incluindo não só os Acordos de Bolonha, mas também o Espaço Europeu da Investigação, e a nova forma de tratamento destas questões. No Programa do Partido, nada está escrito impedindo esta orientação, e se estivesse deveria ser urgentemente corrigida, porque a orientação actual é um erro estratégico. Este é o momento certo para proceder aos acertos que se impõem. 

"Fait Divers" Políticos (IV)

Quem é Joe, The Plumber?

O mundo ficou suspenso quando John McCain no seu último debate com Barack Obama resolveu apresentar Joe, o Canalizador (Joe, the Plumber), como o epígono das suas preocupações fiscais. Mas quem é este Joe, o canalizador, que tanto preocupa McCain?

Trata-se de Joe Wurzelbacher, que McCain confundiu com Joe Wurzelburger, um pacato cidadão do Ohio, cidade de Holland, que quer ter um negócio de canalizador, e que se ganhar mais de US$ 250 000 por sano tem de pagar mais 3% de impostos, facto que deixou siderado McCain. Não tendo mais nada para dizer, afirmou: — “Joe, eu quero dizer-te, eu manterei os teus impostos baixos” — afirmou McCain com uma lágrima ao canto olho, numa postura nada populista, perante o “terrorista” Barack Obama, que conforme as sondagens apontam, deverá ganhar as próximas eleições para a Presidência do USA.



McCain já estava na fossa, porque o eleitorado americano não gostou que na crise sem precedentes gerada pelos capitalistas da casa, estes tivessem recebido todo o apoio para continuarem a operar, enquanto que os pobres, vitimas da crise, continuavam sem apoio, e este candidato não apresentou soluções para o fim da crise. As manifestações de protesto multiplicaram-se em Washington e Nova York, contra a plutocracia vigente, que depois de receber o apoio dos contribuintes, tem a suprema lata de gastar dinheiro em festas privadas para os seus dirigentes, como a companhia de seguros AIG (American Insurance Company), que numa festa na Califórnia pós-salvação gastou US$400 000 do dinheiro recebido do erário público. Mas quando McCain apelou a Joe Wurzelbacher, o pessoal americano resolveu saber quem ele era: tratava-se dum obscuro cidadão que nas profundezas do Ohio achava que Barack Obama era, imagine-se, socialista, pois pretendia esmifrar os pobres que como ele tinham sucesso.

Evidentemente o assunto não podia ficar assim. A criatura recebera demasiada exposição pública. E eis senão quando, Barack Obama aparece em Holland, Ohio, para explicar particularmente a Joe, o Canalizador, em frente a uma multidão, note-se, que as coisas não eram bem assim, mas o homem não ficou convencido.



Entretanto este paisano vai gozando estes momentos gloriosos dignos de Hollywood enquanto a crise se desenvolve e não há indicações de que termine tão cedo. Continuemos atentos aos próximos capítulos.