quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Reflexões Estratégicas Domésticas (III)

Quando os apólogos disparatam…

Constança Cunha e Sá resolveu fazer palpitantes afirmações no seu jornal de sempre (Público, 18 Dezembro 2008) manifestando a sua perplexidade pela anunciada e inusitada subida do PCP. Segundo ela, isso é tanto mais estranho quanto o PCP:

·         É uma aberração ideológica, e, porque visto como tal, foi durante muito tempo um partido ignorado, incapaz de contribuir para um debate sério sobre o desenvolvimento do país;

·         É um Partido envelhecido, e porque desprovido de quadros e sem intelectuais ao dispor, parecia ter os dias contados: pois era uma espécie de relíquia histórica que mais tarde ou mais cedo acabaria por desaparecer, levado pela inflexibilidade de uma ortodoxia que se recusava a evoluir;

·         É um partido quiçá maquiavélico, pois com Jerónimo de Sousa os comunistas deixaram-se de evasivas ideológicas e, recuando no tempo, recuperaram acriticamente as suas teses do passado, reduzindo o debate ideológico aos problemas concretos dos portugueses, esquecendo outras questões de grande sumo teórico como o implosão da antiga União Soviética, a saúde, pensamento e actividade política de Fidel Castro, e grandes questões doutrinais que envolveram a queda do Muro e o futuro do socialismo;

·         Tem um projecto apresentado sem viabilidade, e sem qualquer tipo de alternativa, e cuja força ultrapassa um modelo de desenvolvimento que nem sequer existe.

As afirmações de Constança Cunha e Sá são a manifestação do pavor que a subida do PCP está a criar na sociedade portuguesa, entre os sectores que vêem com desespero a total ausência de soluções para a crise estrutural que a burguesia imperialista criou, e que promete arrastar consigo todos os seus clientes e lacaios nos vários países do mundo. De forma ingénua Constança Cunha e Sá vem-nos dizer que o sistemático silenciar do PCP foi um acto miserável e deliberado, por não contribuir para simplesmente melhorar o Sistema e nunca o por em causa, como os apóstolos do capitalismo entendem que deve ser feito.

Na verdade quem é que disse a Constança Cunha e Sá que o PCP é uma aberração ideológica e uma relíquia histórica, quando a classe operária continua a existir e a manter todo o seu vigor de transformação histórica, constituindo de facto, e cada vez mais, o último reduto de esperança de constituição de uma sociedade onde não sejamos explorados? Quem lhe disse que é um Partido envelhecido e sem meios humanos para levar a cabo as suas propostas? Quem lhe disse que não evoluímos todos os dias? E já agora se estamos assim tão intelectualmente ossificados, com um projecto sem viabilidade e que não configura qualquer tipo de alternativa, como é que continuamos a produzir propostas que as pessoas sentem como essenciais e que gostariam que levássemos a cabo?

Constança Cunha e Sá não passa afinal dum dos muitos elementos que neste momento de crise pretendem negar que a luta de classes existe, para que a racionalização do Sistema capitalista se faça sem o pôr em causa, e ultrapassar os seus limites. Daí que não se importe de cair em afirmações que são ofensivas, pensando que exibindo uma autoridade intelectual que ninguém lhe reconhece, e juntando-lhes meia dúzia de insultos, os camaradas vão arrepiar caminho, e abandonar a luta a que se propuseram. Mas isso é um sonho vão de quem pretende prosseguir com um Sistema que provoca dor a todos o que o sofrem. Que o digam todas as centenas de milhares de trabalhadores que com as actuais reorganizações de mercado vão ficar no desemprego, e sem salários para se alimentarem a si próprios e àas suas famílias.

Ainda que Constança Cunha e Sá não goste, a racionalização do Sistema tem de ser conduzida pelos trabalhadores e pelo respeito pelos interesses dos próprios, visando a prazo o verdadeiro Socialismo e progressiva extinção da sociedade de classes. E é isto a que os autênticos comunistas se propõem desde que Marx e Engels o equacionaram. E é isso que cumpriremos, ainda que não estejamos sintonizados com a modernidade que Constança Cunha e Sá gostaria que exibíssemos.


terça-feira, 16 de setembro de 2008

Acontecimentos Políticos Hilariantes (I)

Colapso apocalíptico
E o Ministro afirmou: "Creio que há um ano todos esperávamos que esta situação e a incerteza que daí decorria se pudesse desvanecer mais rapidamente. "E mais adiante: "De facto, isto [a crise dos mercados financeiros] está a ter uma duração que está a surpreender todos." Todas estas sábias palavras do ministro Teixeira dos Santos obrigaram a que criássemos rapidamente esta secção para declarações politicas hilariantes. E quando um politico as produz, trata-se de um acto irresponsável visando enganar o próximo, que não é de todo admissível.
O sucessivo colapso das estruturas bancárias e doutras companhias configura já uma implosão do sistema capitalista sem paralelo na História. O Apocalipse materializou-se. Os custos da ganância são enormes. A previsão obriga à injecção no futuro próximo de para já 350 mil milhões de dólares no subsistema financeiro, uma previsão por baixo, sem considerar as últimas declarações de falências, pois só na AIG o governo de Bush vai injectar 40 mil milhões de dólares. O custo global, em todos os subsistemas, não vai ser inferior a um bilião de dólares. A crise está para ficar, pois sendo global, atinge todo o Sistema, mas mais aqueles países, como a Grã-Bretanha, que sempre mais se reverenciaram frente ao Imperialismo dos USA.
O governo de José Sócrates encontra-se no meio duma catástrofe sem precedentes, e está na pior situação possível porque impôs medidas gravosas ao povo português um ataque sistemático aos direitos dos trabalhadores, o que nalguns casos incluiu violentar a sua dignidade profissional, pensando que o futuro era neo-liberal, e que este crime ia ficar impune. Numa altura em que mesmo dentro do Sistema as vozes são para a sua racionalização, o governo de Sócrates está num limbo, pois tal racionalização tem de ser feita com a compreensão dos trabalhadores, e não ao seu arrepio. E haverá algum trabalhador que lhes conceda esse mandato, depois de todas as agressões e de todos os actos malignos, programados e executados por este Governo?
Daí que o ministro Teixeira dos Santos venha a público com brincadeiras de mau gosto pensando que os portugueses e as portuguesas ou são idiotas ou andam a olhar para os abismos. Tais chalaças dariam vontade de rir à gargalhada, não fora a desgraça que assalta os cidadãos e que nem dá para chorar, pois os nossos olhos estão secos e os nossos punhos cerrados para manifestar a nossa fúria. Todos sentem na pele a submissão ao grande patronato, e por isso só podem exigir que o que quer que suceda a esta desgraça, só pode melhorar a sua situação. É necessário uma outra política virada para a melhoria das condições de vida dos cidadãos, e da promoção da cidadania, aonde os seus agentes tratem os cidadãos como pessoas de corpo inteiro, e não como alguém que pode ser enganado de qualquer maneira, pois situações como as que estamos a viver não podem voltar a acontecer. E tal só será conseguido se as reformas que a situação exige forem conduzidas, controladas e executadas pelos trabalhadores e por quem efectivamente os represente, para a satisfação dos seus interesses, sem qualquer ligação umbilical, ou de qualquer outro tipo, aos interesses exploradores. A este tema voltaremos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Cartas Escocesas (I)

Quando é necessário emigrar de vez em quando

Desde o passado dia 31 de Agosto, pelas 19:00 horas que estou em Glasgow e isso significa que já há duas semanas me encontro a trabalhar no Astronomy & Astrophysics Group da Universidade de Glasgow, para gozo duma licença sabática que espero dure de 11 a 12 meses, financiada pela FCT. Fui recebido como um herói, e isto porque a minha contribuição para o desenvolvimento deste Grupo nos idos de 1999/2000 na minha anterior licença sabática, também financiada pela FCT, frutificaram muito bem. E eles estão à espera que desta vez seja da mesma maneira. Ideias não nos faltam. Esta recepção, e a consideração que manifesta, contrastam bastante com a estúpida falta de consideração que os meus colegas aí em Portugal têm por mim e pela minha actividade científica, e que configura um verdadeiro assassinato científico.

Muitos perguntam-me porquê esta vontade de vir para o Estrangeiro. A resposta é muito simples: ninguém emigra por gosto, mas de facto para ficar satisfeito com aquilo que faz e pelo reconhecimento desse mesmo trabalho. Ora uma parte substancial das alegrias que tive no campo científico resultam da minha actividade primeiro em Inglaterra, na Universidade de Manchester, e mais recentemente aqui na Universidade de Glasgow, na Escócia. As autoridades académicas em Portugal nunca se preocuparam em garantir-me condições de trabalho aceitáveis, acesso a estudantes que permitam potenciar o meu trabalho, nunca me permitiram no Instituto Superior Técnico que eu ensinasse no Departamento de Física, esqueceram-se que eu existia no início da década de 90 do século passado quando formaram o CENTRA no Instituto Superior Técnico, embora eu estivesse a orientar trabalhos de pós-graduação de estudantes que se graduarem em Mestres em Física, e finalmente, com a destruição do Centro de Electrodinâmica puseram-me na prateleira de forma definitiva, por mais protestos que faça.

Tudo começou em função das grandes esperanças que nesses tempos de Primavera Marcelista criámos em volta da Universidade e seu desenvolvimento. Respondi ao apelo do Professor Abreu Faro no sentido de criarmos um Centro de Investigação de Física de Plasmas plural, ou seja com vários domínios, e a mim coube-me a Astrofísica que nesses anos longínquos não existia em Portugal. Eu era o primeiro a ser enviado ao estrangeiro com uma bolsa do Instituto de Alta Cultura para atingir esse desiderato, permitindo que ao voltar fosse possível fazer crescer esta área.

Parti a 25 de Setembro de 1972, da Portela de Sacavém pelas 11 horas, um dia histórico na minha vida. Fui estudar sob a orientação científica do Professor Franz Daniel Kahn, no Departamento de Astronomia da Universidade de Manchester, Inglaterra, que ao começar esta orientação não esperava que ela fosse o início duma colaboração que durou 25 anos. Mas o que se passou foi bem diferente.

Regressei em Julho de 1976 com o grau de Doutor (PhD) concluído, e era de facto o primeiro Astrofísico do país. Mas ao contrário do que esperava nada se passou que me permitisse crescer para além do meu Doutoramento. O silêncio era insuportável, apesar de todas as minhas diligências. Em Setembro de 1978 fui a York, em Inglaterra, à Assembleia-Geral da Sociedade Europeia de Física, e fui visitar o meu professor a Manchester. Saí da visita com um contracto de pós-doutoramento de Research Associate, equiparado a Lecturer (Professor Auxiliar) por dois anos. Regressei a Manchester em Agosto de 1979, e como o contracto se estendeu por mais um ano, regressei a Portugal em finais de Julho de 1982, para garantir o meu lugar de Professor Associado.

Durante este tempo todo em termos de ensino estive ligado ao Departamento de Engenharia Electrotécnica do Instituto Superior Técnico. Tentei com grande empenhamento entrar no Departamento de Física, mas nunca houve interesse em prover a transferência. Na verdade não se compreende como uma Escola Superior promove um Doutoramento em Astronomia, e depois o mantém o Doutor após regresso, ligado a um Departamento de Engenharia Electrotécnica em vez de o mandar em alta velocidade para o Departamento de Física. Em termos de Investigação estava ligado ao Centro de Electrodinâmica, criado em 1973, quando ainda me estava a graduar em Manchester. Mas a actividade de formação pós-graduada ligado à investigação só se começou a desenvolver em 1985, quando a hoje Doutora Maria João Marchã, veio fazer comigo um trabalho de fim de curso para a sua Licenciatura no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa sobre Núcleos Galácticos Activos e Fontes Extragalácticas de Rádio Frequência, sendo a primeira vez que tais trabalhos eram feitos em Portugal, e foi aumentado em 1978 quando o hoje Professor Paulo Gil veio fazer sob a minha orientação uma Tese de Mestrado sobre Pulsares.

No ano de 1987 e na sequência do meu pedido de provas de Agregação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, fui chumbado de forma humilhante nas referidas provas. Recebi nessa altura varias manifestações de solidariedade, mas que não produziam qualquer efeito: o insulto estava consumado. E quando questionado sobre as razões deste facto, um membro do júri afirmou: — Porque ele veio confrontar-se com a Faculdade de Ciências!!! Sem comentários.

A ligação a Manchester continuava, e em 1984, de Julho a Dezembro, tive uma licença sabática de seis meses, e mais tarde uma outra de um ano, de Agosto de 1991 a Agosto de 1992, ambas no Departamento de Astronomia da Universidade de Manchester. No intervalo ia lá passar semanas para trabalhar com FD Kahn.

E foi na década de 90 que a actividade foi mais profícua. O estudo dos pulsares conheceu um esforço suplementar, e além da Tese de Mestrado de Paulo Gil tive outras três sobre pulsares, uma de Zeferino Andrade, outra de Paulo Freire, e outra de Fernando Simões. Este esforço só foi possível por haver projectos financiados pela JNICT (Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica), predecessora da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). Nesta década fui o coordenador do nó de Lisboa do Projecto EuroToP (European Timing of Pulsars), projecto que embora tivesse ficado em 6º lugar, não foi financiado, por terem-no sido só os cinco primeiros.

A morte do Professor Franz Daniel Kahn em Fevereiro de 1998 obrigou a repensar a actividade de investigação em pulsares. Era urgente arranjar uma parceria com um grupo de Física de Plasmas interessado em trabalhar na área dos Pulsares. Consegui que o Grupo de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Glasgow, na Escócia, estivesse interessado nesta matéria, pois tinha um grupo de Física de Plasmas de apoio à Astrofísica, e o tema mecanismos de radiação de pulsares, pareceu-lhe importante. E para consolidar esta ligação parti para Glasgow em Outubro de 1999, onde permaneci até Agosto de 2000.

A colaboração lançou uma linha de investigação em pulsares. Desde 2000 conseguiu-se que Mestre Craig Stark se doutorasse. A minha contribuição para este desenvolvimento está expressa na Tese de Doutoramento de Craig Stark, escrita pelo próprio: “Também quero agradecer a António, o meu supervisor não-oficial, o seu entusiasmo por pulsares é contagiante. A sua ajuda foi inestimável e é muito apreciada **”. É esta linha que ajudei a crier que venho agora ajudar a desenvolver.

Esta situação contratou bastante com a postura dos órgãos científicos do Instituto Superior Técnico. Com o encerramento do Centro de Electrodinâmica em 2002, num acto da mais pura vingança política contra Manuel José de Abreu Faro, entretanto já falecido em 1999, por ele se opor à forma como se pretendia proceder à organização da Investigação, esqueceram-se de cuidar do meu enquadramento científico. Tentei entrar no CENTRA, mas nem resposta obtive, numa clara violação dos seus próprios regulamentos. E ao mesmo tempo que era posto na prateleira no IST, ajudava os escoceses a crescerem.

Perguntar-se-á como é possível que histórias de terror deste tipo aconteçam. Como é possível afirmar que se pretende a internacionalização da Ciência, e se põe na prateleira um cientista internacional e que trabalha para os outros à custa do erário público português; como se defende a Astrofísica se o primeiro astrofísico do país é esquecido e humilhado.

Quando estou no meio dos meus colegas britânicos sinto-me muito bem e feliz a discutir pulsares: sinto-me de facto cientista. É muito reconfortante poder conversar com ambos os Astrónomos Reais. Para todos eles voltei para um convívio que vai durar desde 10 meses até um ano. Espero continuar a ajudá-los, para que sobrevivam. Vamos ver se o consigo.

**Em inglês: I would also like to thank António, my unofficial supervisor. His enthusiasm for pulsars is contagious. His help has been invaluable and is much appreciated.

                                                

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"Fait-Divers" Políticos (II)

…E aos costumes disse nada…

Esta Secção “Fait-Divers Políticos” acaba de ficar mais enriquecida com os extraordinários acontecimentos da última convenção republicana americana. Nela o senador John McCain anunciou urbi et orbi que a sua candidata à Vice-presidência dos Estados Unidos da América seria a Governadora do Estado do Alasca, Sarah Palin.

De acordo com a Constituição dos USA o Presidente tem de ter a acompanhá-lo sempre o Vice-Presidente. Este é a segunda figura do Estado, e preside ao Senado, que é uma das câmaras do Congresso dos USA, e a mais importante, pois é a que garante a paridade entre os 50 Estados da União. Se o Presidente morrer ou ficar incapacitado para o cargo, ou for impugnado, isto é, julgado e condenado pelo Senado, então o Vice-Presidente imediatamente assume a Presidência. Daqui resulta que o Vice-Presidente dos USA não é uma figura decorativa como alguns julgam, mas tem funções importantes, e a sua escolha tem de ser cuidada, não podendo ser seleccionada qualquer pessoa.

John McCain ao escolher Sarah Palin seleccionou uma antiga rainha de beleza, cujo único mérito foi ter subido a pulso os ínvios caminhos da política. A mulher não faz qualquer ideia da importância dos dossiers que vai ter de ler e tomar decisões. E foi escolhida por razões que nada têm de nobre: os de ser tão bela quanto reaccionária. Na verdade Sarah Palin é uma representante da Direita Cristã evangélica, que é um grupo de fundamentalistas cristãos. Estes têm como principal ponto da sua agenda política a difusão entres os americanos da ideia extraordinária que o mundo foi criado por Deus preferencialmente em 7 (sete) dias. Sem qualquer fundamento teológico, ou melhor com raciocínios que ofendem a Teologia, a Direita Cristã está convencida que Deus corresponde às suas delirantes e sacrílegas descrições, e que a Sua agenda é a deles. Daqui partem para uma cruzada que pretende eliminar a teoria da evolução de Darwin das escolas, com terríveis consequências para a literacia científica dos cidadãos. Por outro lado Sarah Palin está de total acordo com o movimento contra a interrupção voluntária da gravidez, um ponto sagrado da agenda da Direita Cristã. O facto de ser muito elegante e bem apessoada corresponde ao esforço para iludir os votantes americanos, pois que se pretende transmitir a ideia de que uma pessoa tão bela não pode ser perigosa.

No fim de contas o aparecimento de Sarah Palin traduz bem as profundas confusões que fazem a cabeça dos responsáveis políticos norte-americanos. Para o chefe da campanha de McCain é completamente inócuo se Palin sabe ou não o que anda a fazer. As eleições segundo este grande (ir)responsável, nada têm a ver com a discussão de programas políticos: é uma questão de mística pessoal, potenciada pelo eventual excelente aspecto dos candidatos. Só assim se compreende que ao ser vista à lupa a candidata ao mesmo tempo que era elogiada a sua beleza, tivesse que responder não acerca da suas plataformas e da sua adequação à satisfação da crise social e política existente, mas sim questões pessoais, como o de saber se tinha havido relações extra-conjugais suas com um amigo do marido após a comemoração dum êxito comercial de ambos, ou o facto da sua filha de 17 anos estar grávida fora do casamento.

Mas nada disto é surpreendente. Na verdade nestas eleições muito tem sido prometido que exprimido tem dado muito pouco sumo, ou seja fala-se muito mas não se diz o que quer que seja. Mas aqueles que estão empenhados na racionalização do Sistema, ficam estarrecidos só em pensar o que aconteceria se John McCain morresse de repente, e Sarah Palin tivesse de tomar as rédeas do comando. Talvez nessa altura o establishment norte-americano tivesse de fazer o mesmo que no tempo do Nixon, quando este tinha que se ir embora por causa de Watergate, e o Vice-Presidente Spiro Agnew que o teria de substituir tinha ligações claras com a Máfia. Substituiu-se primeiro o Vice-presidente Spiro Agnew por Gerald Ford, depois caiu o Presidente Nixon, Gerald Ford foi entronizado como Presidente, e criado um novo Vice-Presidente.

Como é evidente nada temos com isto, mas vale a pena mantermo-nos atentos ao profundo resvalar dum sistema agonizante num país aonde o Imperialismo domina de forma mais agressiva. De facto fazer repousar opções políticas muito importantes sobre a escolha da interrupção voluntária da gravidez, só lembraria ao Imperialismo americano...


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Reflexões Estratégicas Globais (I)

Crónica de um desastre anunciado

A decisão da administração norte-americana de salvar da falência os dois grandes potentados da alta finança, Fannie Mae e Fannie Mac, constitui um momento histórico da maior importância. Ela consagra a total falência do projecto neo-liberal para a condução do capitalismo, o fim duma época iniciada em 1979, com a entronização de Margaret Thatcher como Primeira-Ministra do Reino Unido. Trata-se do fim dum fundamentalismo económico, o domínio absoluto da economia de casino, e do capital financeiro sobre todas as formas de Capital. Com Thatcher e mais tarde Ronald Reagan, o que permitisse aumentar a taxa de lucro, e a supremacia do primado da alta finança, era benéfico para todos. O Sistema teve a suprema arrogância de ignorar a instabilidade inerente à cada vez maior rotatividade do capital financeiro, mas o estoiro das várias bolhas em que se tornou a economia capitalista no plano global deu cabo da estabilidade do sistema capitalista, e lançaram-no numa crise profunda.

Há muito que Fidel Castro assinalara que não era possível manter vivo e de boa saúde um sistema que transacciona diariamente em bolsa 1 bilião de dólares de acções valor superior a tudo o que se produzia. Tal só era possível porque os pagamentos dessas transacções eram diferidos no tempo, sendo possível transaccionar o mesmo título várias vezes em sucessão sem ele ter ainda saído dos cofres do primeiro dono. Esta característica da operacionalidade bolsista era altamente instável pois bastava que um dos elos da cadeia não pagasse para que o processo estourasse.

Não foi no entanto por aqui que o sistema foi ao tapete, fazendo lembrar aquele doente que passou toda a vida a tratar o seu coração doente… e vem a morrer de pancreatite aguda!!! O sistema estoirou por um conjunto de burrices inacreditáveis impróprias de dirigentes financeiros tão qualificados, profundamente arrogantes, e acreditando que a sua ganância produziria milagres económico-financeiros. Os bancos e mais sociedades financeiras entregaram verbas fabulosas a quem queria comprar casa para poder viver, e que não tinham condições para as pagar a curto, médio e longo prazo. O mercado imobiliário tornou-se um el-dorado que parecia não ter fundo. Foi uma das áreas de grande concentração de investimento. Para aumentarem os lucros sobrevalorizaram as casas. Evidentemente que as casas eram a garantia, na esperança de que se os empréstimos não fossem pagos, as casas passariam para as mãos dos credores que as venderiam em hasta pública, e o dinheiro estava salvo.

O erro foi não terem em conta a lei dos grandes números, o que sucederia se um número excessivo de devedores não pagassem as casas. Claro que as casas iam a leilão, mas porque eram demasiadas o preço caía em flecha, não cobrindo os empréstimos atribuídos. Daqui para a crise imobiliária foi um passo de formiga.

As empresas financeiras do imobiliário Fannie Mae e Fannie Mac ficaram impossibilitadas de ter lucros, e os seus prejuízos punham em causa a sua existência. O Sistema viu-se confrontado com a sua perda: deixar afundá-las era afundar largos sectores da economia que transcendia as operações estritamente fundiárias. E o Estado, representante do grande capital, lançou mão dos impostos, para salvar o pescoço duns quantos, que seriam muitos mais se tal operação não fosse feita: Fannie Mae e Fannie Mac foram salvas, mas com isso morreu a ilusão de que na economia de mercado todos os perdedores são equivalentes, e que todos têm de arrostar com as consequências dos seus actos. Na verdade uns são mais do que outros.

Estas duas companhias americanas são só a ponta do iceberg da crise. Muitas outras companhias um pouco por toda a parte estão a tremer de medo porque o número de maus pagadores aumenta, e elas não sabem o que fazer à vida. A situação é tão grave que por causa disto se instalou uma crise política no Reino Unido.

Tudo isto poderia ser ultrapassado, não fora a existência de outros problemas. A segunda peça da crise foi o aumento vertiginoso do preço do preço do petróleo. A procura era seguramente muito maior que a oferta, devido ao aparecimento das economias emergentes, e as reservas de crude começaram a desaparecer lentamente. O preço disparou especulativamente.

Com a crise do imobiliário e a subida dos preços da energia, o Sistema virou-se para os bens alimentares, como fonte de estabilidade dos preços, Mas alguns deles eram fonte de pressão especulativa devido à capacidade de ser fruto de combustíveis, e a sua procura como reserva monetária levou à espiral inflacionista. E aqui atingiu-se a obscenidade económica, ao fazer subir os preços de primeira necessidade para satisfazer a gula do capital financeiro, lançando na miséria largos sectores das populações normalmente as mais desfavorecidas, incapazes de poder comprar os bens de primeira necessidade.

Mas os centros de programação estratégica do capitalismo não dormem. Como este quadro de crise global é susceptível de provocar uma onda de instabilidade social, pois a eles juntavam-se as péssimas consequências sociais dos “ajustes” que vinham a ser feitos para que os valores do mercado dominassem todos os cantos mais recônditos da nossas vidas, os referidos centros já concluíram que o grande problema é o fundamentalismo do mercado e sem descanso procuram meios de o conjurar.

O domínio do capital financeiro estabelecido em 1979 por Margaret Thatcher e mais tarde reforçada pela subida ao poder de Ronald Reagan como Presidente dos USA, teve três fases. A primeira de 1979 a 1989 completou o referido domínio e destruiu a União Soviética com fortes cumplicidades internas. O segundo período vai de 1989 até 1999 e traduz a adaptação que o sistema teve de efectuar para reconverter todos os braços da economia capitalista que resultavam da existência dos dois sistemas. O terceiro período, desde 1999, é consequência dum Sistema em velocidade galopante e a praticar todos os desmandos, julgando que pode fazer tudo o que lhe apetece, à custa do sofrimento das massas trabalhadoras. Ora o fim do consulado Bush é o crepúsculo dos deuses e a decisão de salvar Fannie Mae e Fannie Mac um espantoso canto de cisne.

Os centros de programação estratégica preparam-se para reformular todo o sistema suportando-se no que pensam ser a passividade global dos trabalhadores, sem uma perspectiva global clara de luta. É este o fim da administração Barak Obama a eleger no próximo Outono, lá para Novembro. O sucesso que tiverem vai ser consequência da capacidade de mobilizar todos aqueles, que sempre viveram na dependência do Sistema, e que em vez de darem cobertura à sua pretensa racionalização, potenciem a acção de massas em todos os teatros aonde tal seja objectivamente possível, como é o caso português na luta que vimos travando contra a politica de direita e de espoliação dos mais elementares direitos dos trabalhadores pelo governo de Sócrates.

É necessário e urgente que todos pensem que o Sistema capitalista não tem qualquer capacidade de ser racionalizado e que ele pode e deve ser substituído. Ele não tem por fim a felicidade de toda a Humanidade, mas a concentração da capacidade económica nas mãos de uns quantos. E por isso é preciso que assumamos que as mudanças são antropológicas, pois a sociedade de classes nas suas variadas formas dominou a História da Humanidade. É preciso começar a dar os passos para uma nova antropologia, a sociedade da sabedoria, o socialismo, assumindo o carácter colectivo do saber acumulado ao longo da História. Afinal essa nova sociedade é a que nos põe a coberto de indivíduos desprezíveis que vivem à nossa custa, e às nossas costas, e que nos põe a salvo de estarmos sempre sem sossego, na dúvida se amanhã ainda temos trabalho que suporte o nosso sustento. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Sonhos Olímpicos (III)

Do Sucesso de Pequim 2008, às Dúvidas de Londres 2012

Chegou o momento de encerrar o Dossier Jogos Olímpicos de Pequim. Terminados já há cerca de duas semanas foram tão ricos culturalmente que ainda não se esfumou dos nossos olhos a extraordinária beleza das duas cerimónias, a de Abertura e a de Encerramento. Outra questão importante é comentar a actuação da representação nacional em Pequim e que esperanças para 2012. E que perspectivas para a realização dos Jogos em Inglaterra em 2012, quando este país está à beira duma crise económica sem precedentes.

Os Jogos em 2012 foram totalmente ganhos pela China, não só em termos de medalhas de ouro, mas também da satisfação dos objectivos políticos colocados: conseguir dar uma ideia de modernidade da China, da sua comprometida abertura ao mundo e da sua empenhada vontade em dialogar com todos os povos, nações e sistemas políticos. Não foram poupados meios financeiros e não faltaram vozes que afirmaram tal extravagância só ser possível num país totalitário, perfeitamente ao arrepio dos problemas económico-financeiros que hoje consomem o mundo.

Porém estamos na presença de desculpas de mau pagador. Os Jogos mostraram um empenhamento nacional, altamente exigente, e as acções de massas associadas foram conduzidas no respeito pelas aspirações dos povos, no desejo de paz universal, e são benéficas para o entrosamento do tecido social. As acções de massas só são negativas se os povos forem manipulados e conduzidos a práticas agressivas, e contrárias aos seus interesses mais profundos, como aconteceu nos jogos de Berlim em 1936. A China pós-Jogos é um país mais unido, e mais capaz de enfrentar os desafios do futuro.


Os Jogos mostraram também a insuficiente preparação da delegação portuguesa para participar nesta arena internacional. Já aqui se afirmou que para ganhar medalhas é preciso trabalho humildade e muito carácter. Mas é também necessário investir muito mais do que se tem feito no desporto. Não é possível ter um escol atlético se não houver uma estrutura de base para suportar este esforço. Aonde anda o desporto escolar? Que apoios tem o movimento associativo em termos de prática desportiva? Que entrosamento existe entre um e outro? Só pode haver uma prática desportiva adequada a produzir atletas excepcionais se houver uma íntima ligação com o trabalho cultural.
Na minha intervenção na Conferência Nacional do PCP sobre o Poder Local em Corroios, 17 de Maio de 2003, afirmei:

A quarta questão tem a ver com o exercício do Poder Local. Que relação íntima entre actividade cultural, actividade desportiva, actividade de juventude e actividade educativa existente e que deveria existir? Que actividade cultural em associações desportivas? Que desporto amador a nível das autarquias na sua tripla vertente lúdica, formativa e competição fraterna? E ainda qual a relação que o Poder Local, se alguma, deverá manter com o Desporto Profissional? E finalmente qual a articulação no espaço das autarquias entre o Desporto Amador e o Desporto Escolar?

Estas questões nunca foram satisfatoriamente respondidas pelo poder dominante, a situação está cada vez pior em termos de desporto de massas, e depois vem-se chorar os 40 milhões de euros que se gastaram ao longo de quatro anos. Isto não é compreensível, pois que ainda que não seja essa a nossa perspectiva, mesmo em termos puramente comerciais só Nelson Évora vale comercialmente 15 milhões de euros por ano. Só Nelson Évora pagou tudo e deu lucro… E não é compreensível de facto porque nunca se fez uma estimativa justa para estabelecer quanto efectivamente custa desenvolver uma estrutura desportiva capaz de articular todas as suas componentes, e que obedeça a exigências mínimas de qualidade de vida das populações e susceptível de gerar futuros campeões.

Portanto iremos a Londres 2012 repetir as asneiras habituais, e então voltar-se-á a chorar o leite derramado. Olimpíadas essas que correm o risco de serem um flop devido ao estado caótico da economia e finanças do Reino Unido, à beira do colapso. Mas tudo enfim se explicará. O Reino Unido é uma Democracia, e portanto não tem que ter os furores “totalitários” da China. E assim tudo ficará mais uma vez na santa Paz de Deus Pai Todo Poderoso, se cheios de ilusões continuarmos a aceitar todos os disparates que o imperialismo e a Burguesia nos quiser meter pelos olhos dentro.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Adeus às Armas (I)

In Memoriam Lourenço Bernardino
Conheci-o quando ele era presidente da Junta de Freguesia do Santo Condestável, e eu era membro da Direcção do Clube Nacional de Natação. Já lá vão uns bons anos. Na altura pareceu-me haver um mal entendido no que respeitava à postura da Direcção do Nacional no que dizia respeito ao seu relacionamento com o executivo camarário de Pedro Santana Lopes, no assunto quente da construção das novas instalações desportivas do Clube. Lourenço Bernardino recebeu-me e eu dei-lhe todas as explicações sobre a matéria em apreço, e que ele usou depois como achou mais curial.
Quando ele deixou de ser Presidente da Junta passámos a encontrar-nos no Centro Pedro Soares nos almoços que de vez em quando se realizam. E Lourenço Bernardino contribuía às vezes fazendo o almoço. Nessa altura no contacto que tive com ele pude constatar que era um camarada de grande firmeza, profundamente sintonizado com o querer deste grande colectivo que é o nosso Partido Comunista Português. E foi também aí que tive conhecimento da doença assassina que o roubou ao nosso convívio.
Na última vez que nos encontrámos, e quando já temíamos o pior, Lourenço Bernardino deu-me um grande abraço cheio de fraternidade comunista. Era como se me dissesse que embora ele estivesse por pouco, esperava que nós todos e eu em particular, continuássemos a luta da sua vida, por um Portugal mais próspero e sem exploração.
Aqui em Glasgow fui informado da sua morte física, porque camaradas como Lourenço Bernardino permanecem nos nossos corações, e as suas vidas são exemplo frutuoso para as lutas futuras, pequenas e grandes, que nos esperam. No fim de contas quando um camarada contra sua vontade nos abandona, outros prosseguirão a mesma luta, elevando bem alto a nossa bandeira. E muito há para fazer para erradicar a sociedade de classes, como afinal Lourenço Bernardino desejava.